Quando a própria Microsoft abre o livro-caixa de dados do Microsoft Flight Simulator, vale prestar atenção. No pacote de estatísticas divulgado no sexto aniversário da franquia rebootada em 2020, a empresa revelou quais aeroportos e aeronaves realmente concentram a maior parte dos voos em MSFS 2020 e MSFS 2024. E o resultado desmonta a fantasia de que o coração do hobby está em grandes hubs e widebodies: o centro do universo virtual é Sedona, uma pista em cima de um platô no meio do Arizona.
O pequeno KSEZ, cercado pelas famosas formações de rocha vermelha, aparece como o aeroporto mais popular somando todas as plataformas e as duas versões do simulador. São impressionantes 53.167.607 chegadas contra 15.628.521 partidas, um desequilíbrio que mostra claramente onde está a diversão: pousar ali é o grande espetáculo, de preferência em um monomotor leve, aproveitando o cenário que o próprio MSFS já renderiza muito bem por padrão.
Logo atrás de Sedona, os números voltam a um mundo mais familiar. KJFK, em Nova York, assume o segundo lugar com 7.201.299 partidas e 11.377.305 chegadas, enquanto Nice Côte d’Azur (LFMN), na Riviera Francesa, fecha o top 3 com 5.258.819 decolagens e 13.162.710 pousos, misturando tráfego de linha aérea com turismo virtual pesado.
Hubs para decolar, cartões-postais para pousar
Quando a lista é fatiada entre aeroportos mais usados para partidas e para chegadas, o padrão fica cristalino. Para decolar, o simmer corre para os grandes hubs globais: Los Angeles (KLAX) com 7.033.067 partidas, London Heathrow (EGLL) com 6.161.181, Tokyo Haneda (RJTT) com 4.072.934, Frankfurt (EDDF), San Francisco (KSFO), Amsterdam Schiphol (EHAM) e Sydney (YSSY) completam o pelotão. São os lugares clássicos para montar um voo completo de linha aérea, do pushback ao docking.
Já na lista de chegadas, o comportamento muda de tom. Depois de San Diego (KSAN, 9.777.279) e da própria Sydney (YSSY, 6.868.962), o ranking é dominado por destinos que combinam cenário forte com desafio operacional: Jackson Hole (KJAC) aos pés dos Tetons, Rimrock (48AZ) no vale do Verde, Lukla (VNLK) pendurada na encosta do Himalaia, Bora Bora (NTTB) em meio ao atol e Sumburgh (EGPB) nas Shetland varridas pelo vento. O recado é claro: o pouso bonito e difícil vale mais que o gate lotado.
Cessna 172 reina entre as aeronaves, com caça logo atrás
As estatísticas de aeronaves reforçam a mesma narrativa. O avião mais voado em seis anos de Microsoft Flight Simulator é a Cessna 172, o treinador de quatro lugares que também é porta de entrada para a aviação real. Não por acaso, o modelo segue recebendo atenção de alto nível no ecossistema de addons, com versões dedicadas para MSFS 2024 de estúdios como Carenado e o aguardado projeto da A2A, que promete elevar ainda mais o padrão de simulação desse clássico.
Em segundo lugar aparece o Boeing F/A-18E Super Hornet, caça gratuito que chegou ao simulador junto com o conteúdo de Top Gun: Maverick e nunca perdeu tração. O Airbus A320neo padrão ocupa a terceira posição, somando suas variantes, enquanto a Cessna 152 surge em quarto, confirmando que o grosso das horas de voo está em aviões de treinamento e uso geral, não necessariamente nos airliners complexos que dominam as manchetes.
Números gigantescos, mas com limitações importantes
O balanço bruto impressiona: desde 2020, a Microsoft contabiliza 1.624.686.993 sessões de voo no ecossistema do MSFS. No Twitch, mais de 51.150.000 horas de transmissão já foram assistidas, e a distância total percorrida equivale a mais de 94.000 idas e voltas até a Lua, um número que serve mais como curiosidade do que como métrica prática. É o tipo de escala que ajuda a entender por que o simulador virou vitrine constante em eventos e campanhas de hardware.
Mas há ressalvas. Os dados somam MSFS 2020 e MSFS 2024 em todas as plataformas, cobrindo seis anos de uso contínuo, e parecem considerar apenas conteúdo padrão. A Microsoft não detalha como voos com addons são tratados, e o ranking de aeronaves mostra apenas modelos default, o que indica que um voo em um PMDG 737 saindo de um JFK payware ainda entra na planilha apenas como “partida em JFK”. Ou seja, as estatísticas revelam para onde o público vai e o que vem na caixa, não quais addons dominam o mercado.
O que os dados sinalizam para desenvolvedores de cenários
Mesmo com essas limitações, o mapa de calor que emerge é valioso para quem desenvolve conteúdo. Quando um aeródromo minúsculo como Rimrock ou um campo remoto como Sumburgh acumulam milhões de chegadas usando apenas o cenário padrão, fica claro que existe uma base de usuários já engajada ali, esperando por uma versão de alta fidelidade. É demanda comprovada, não chute de marketing, e isso deveria pesar na hora de escolher o próximo projeto.
Sedona é o exemplo perfeito: é o aeroporto mais movimentado do simulador, tem terreno padrão muito competente, e ainda assim qualquer melhoria de fidelidade tende a ser amplamente recompensada em vendas e visibilidade. O mesmo vale para Jackson Hole, Bora Bora, Lukla e outros destinos que aparecem no topo das chegadas. Para um estúdio atento, esses números funcionam como uma lista pública de “alvos quentes” onde um bom cenário pode se destacar rapidamente.
Resumo e Análise Editorial FlySimBR
Os dados oficiais da Microsoft basicamente confirmam o que muita gente já sentia na prática: o grosso da comunidade de MSFS passa mais tempo em Cessna, pousando em lugares fotogênicos e desafiadores, do que voando rotas longas em widebodies entre mega-hubs; para desenvolvedores, isso deveria ser um alerta para parar de disputar o décimo cenário de Heathrow e olhar com carinho para aeroportos como Sedona, Rimrock, Lukla e companhia, onde o público já está voando pesado mesmo sem um cenário payware à altura.




