Durante anos, manche com force feedback foi sinônimo de hardware de quatro dígitos e setups de cockpit dedicados. A MOZA começou a mexer nesse vespeiro com o AY210, mas ainda longe da realidade da maioria dos simmers. Agora, o AY90 chega por US$ 399, compatível com o MFY handle de US$ 129, colocando um conjunto completo de force feedback na casa dos US$ 528 – praticamente o preço de um Thrustmaster Boeing yoke sem motor nenhum.
Além do preço, o outro choque é o tamanho. A base mede 325 x 252 x 111 mm, pesa 4,5 kg e vem com grampos na caixa, dispensando cockpit dedicado. Em profundidade, fica na mesma liga de um Honeycomb Alpha, o que torna o AY90 muito mais amigável para quem voa em mesa de escritório e precisa montar e desmontar o setup com frequência.
Na prática, isso significa que o primeiro manche com force feedback “sério” começa a caber tanto no bolso quanto no espaço físico de quem voa MSFS 2020 ou MSFS 2024 em casa, sem precisar transformar o quarto em simulador fixo.


Força mais leve, mas com sensação convincente
No papel, o AY90 parece meio irmão do AY210: 4,2 Nm de torque em roll contra 9 Nm, 90 N de força em pitch contra 210 N e curso de 95 mm em vez de 150 mm, mantendo 180 graus de rotação e encoder magnético de 15 bits. Só que, em voo, a diferença é bem menos dramática do que a ficha técnica sugere. O pitch continua firme, com carga dinâmica crescendo com a velocidade, que é justamente o que vende o force feedback – mais do que números brutos de torque.
O roll é onde o corte aparece mais: o peso nos ailerons em alta velocidade e o “tranco” no toque são perceptivelmente mais suaves que no AY210, mas ainda presentes e suficientes para monomotores e bimotores GA. O pacote de efeitos está todo lá: vibração de motor em idle, textura de pista em grama e cascalho, flaps, trem, buffet de estol com alívio nos comandos, acompanhamento de autopilot e trim de hardware que move o manche. O ponto fraco é o curso reduzido: na flare e em bush flying você sente falta de throw, algo que só dá para mitigar com curvas de resposta no MOZA Cockpit, sem recuperar o deslocamento físico.


Construção sólida, mas com escolhas discutíveis
Em termos de construção, o AY90 passa sensação de robustez, com apenas uma leve flexão se você força a parte superior e um acabamento fosco que tende a marcar com o tempo, nada que comprometa a durabilidade. A frente replica um painel de Cessna 172, com chaves de bateria e aviônicos e um magneto de cinco posições programável. O problema é que o magneto não é com retorno por mola, então não volta sozinho para BOTH, algo que quebra a imersão para quem gosta de operar motor a motor.
Outro ponto polêmico são os dois sliders rotulados como flaps e engine, ocupando o espaço onde o AY210 trazia a alavanca de trem. Eles funcionam como eixos reais e, somados aos gatilhos do MFY Pro mapeados como freios, rendem cinco eixos no conjunto. Mas a ergonomia é estranha em voo e, na prática, quem investe nesse nível de hardware quase sempre já tem um throttle quadrant dedicado. Um botão programável a mais ou um gear lever de verdade fariam melhor uso da área. Pelo menos, os grampos agora vêm incluídos, algo que o AY210 não oferecia de fábrica.

MFY Pro: tela bonita, utilidade em dúvida
O MFY Pro, vendido a US$ 299, adiciona uma tela touchscreen de 4,3″ (480 x 800) ao centro do manche, cercada por 26 entradas programáveis, dois hats de oito vias, dois thumbsticks Hall, dois bumpers e dois gatilhos que podem atuar como eixos ou botões. A empunhadura é muito confortável, provavelmente uma das melhores do mercado, e o painel é nítido e brilhante, com páginas prontas de PFD, engine, cronômetro, checklist básica e monitor de força do FFB.
O problema é que o software ainda parece cru: há pequenas arestas, como fita de velocidade com lag, e, principalmente, páginas fixas. Não dá para montar layouts personalizados de instrumentos e botões, o que limita bastante o valor agregado. Na prática, você paga cerca de US$ 170 a mais em relação ao MFY padrão por um conjunto de telas pré-definidas, que perde totalmente o sentido se você voa em VR e, mesmo em monitor, fica baixo demais para consulta rápida. É um luxo interessante, mas longe de essencial.
MOZA Cockpit compensa a falta de FFB nativo no MSFS
Como o MSFS não oferece suporte nativo a force feedback, a MOZA recorre à leitura de telemetria do simulador para gerar os efeitos. Isso significa que a qualidade da experiência depende diretamente do tempo que você investe no software MOZA Cockpit. Não há perfil pronto para MSFS na instalação, e os presets são bem conservadores, com vários efeitos desativados por padrão.
A boa notícia é que o MOZA Cockpit amadureceu bastante desde o lançamento do AY210: dá para ajustar tensão de mola, damping, inércia, intensidade e limiar de cada efeito, curvas de resposta e trim de hardware, muitas vezes em tempo real durante o voo. Mal configurado, o force feedback pode ser pior que um manche de molas, então quem não estiver disposto a gastar uma noite mexendo em sliders provavelmente não é o público-alvo. Para quem gosta de tunar o setup, porém, o AY90 recompensa o esforço com uma sensação de voo muito mais viva.
Resumo e Análise Editorial FlySimBR
O MOZA AY90 acerta em cheio ao trazer force feedback para uma faixa de preço comparável a manches premium sem motor, com tamanho amigável para setups de mesa e efeitos suficientes para transformar a experiência no MSFS; em troca, você aceita menos curso em pitch, força mais suave que a do AY210 e alguns deslizes de design, enquanto o MFY Pro parece caro pelo que entrega hoje, tornando a combinação AY90 + MFY básico a escolha mais racional para o simmer brasileiro que quer dar o salto para o force feedback sem estourar o orçamento.


