Quatro anos de Early Access, dezenas de updates, milhares de correções e muita polêmica depois, o pacote FlightSim Studio E-Jets finalmente chegou à versão 1.0 no Microsoft Flight Simulator. A família Embraer E-170, E-175, E-190, E-195 e os cargueiros derivados tenta entregar, de uma vez, o jato regional mais completo do ecossistema MSFS – algo que faz todo sentido para um avião brasileiro que domina o tráfego regional mundo afora.
O contexto ajuda a entender o peso desse lançamento: os E-Jets reais são um case de sucesso global, com mais de 1.400 unidades em operação e presença forte em hubs e aeroportos regionais. No simulador, porém, a história da FSS foi bem menos suave, marcada por um Early Access longo, VNAV inexistente, LNAV errático, travamentos de WASM e performance instável a cada grande atualização da plataforma.
Do caos do Early Access ao marco da versão 1.0
Assumir publicamente um marco 1.0 foi, na prática, a melhor decisão estratégica da FlightSim Studio. Em vez de empurrar indefinidamente o rótulo de Early Access, o estúdio se comprometeu com uma linha de chegada: entregar um produto coeso, com base de sistemas sólida, tanto no MSFS 2020 quanto no MSFS 2024, que agora passa a ser o foco principal de desenvolvimento. Isso também veio acompanhado de um aumento de preço, encerrando o período de “investimento” barato de quem topou ser beta tester pago desde 2023.
Na versão atual, o pacote oferece todas as variantes de passageiros e cargueiras com o mesmo nível de simulação de sistemas, incluindo elétrico, hidráulico, pneumático e um pacote de sons dedicado. Há integração com SimBrief e Navigraph no EFB, MCDU custom em WASM com lógica LOAD27, suporte a CPDLC via SayIntentions e Hoppie e um autopilot reescrito do zero, agora com LNAV e VNAV completos no papel. A questão é quanto disso funciona de forma realmente refinada no dia a dia.
LNAV, VNAV e o “samba” do Flight Director
O ponto mais sensível sempre foi a navegação. Hoje, o LNAV está muito melhor do que na fase inicial: segue rotas com mais segurança, respeita procedimentos e, em cruzeiro, passa boa confiança. O VNAV, antes praticamente ausente, agora calcula perfis de subida e descida e tenta gerenciar restrições de altitude e velocidade. Ainda assim, o comportamento não é tão limpo quanto o de addons topo de linha: em vetorações de ATC, retomadas de rota ou SIDs/STARs cheias de restrições, o avião ainda “dança” na linha, com oscilações laterais e interceptações pouco elegantes.
No eixo vertical, o Flight Director às vezes parece supercalcular o caminho ideal, gerando comandos meio bruscos, especialmente em transições de fase. O piloto automático até compensa boa parte dessas esquisitices, mas quem gosta de voar na mão vai notar guidance pouco suave, com tendência a overshoot em altitude ou velocidade. A boa notícia é que, apesar de tudo, o salto em relação ao Early Access é enorme: agora há um sistema de navegação utilizável e relativamente confiável, que só precisa de polimento fino.
Bugs, EFB limitado e estabilidade ainda em ajuste
Quem esperar perfeição na 1.0 vai se frustrar. A lista de pequenos bugs operacionais é longa: knob de Vertical Speed com direção invertida no clique do mouse, waypoints duplicados ao inserir pontos no MCDU, cálculo de performance que subestima o desempenho real da aeronave e casos de combustível carregado de forma desigual entre tanques. Recursos como Autoland e Step Climb simplesmente não existem ainda, e não há sistema de falhas ou persistência de estado – algo que pesa para quem busca um “study level” completo.
O EFB também fica aquém da concorrência. A integração com SimBrief é básica, sem OFP completo, NOTAMs, previsão de tempo detalhada ou visualização rica da rota. Há cálculo de performance de decolagem, mas falta um landing calculator decente, e o controle de brilho/dia/noite é inconsistente, com auto-brightness falhando. Para completar, alguns usuários ainda relatam crashes ligados a WASM, especialmente nas variantes E-190/E-195 com HUD ativo, embora updates recentes tenham reduzido bastante a frequência desses problemas.
Modelagem, iluminação e som: imersão fica devendo
Visualmente, o pacote entrega um resultado aceitável, mas claramente datado para o padrão atual do MSFS 2024. De longe, os modelos externos convencem e as diversas liveries ajudam na imersão. De perto, porém, aparecem janelas de cabine com geometria pobre, superfícies pouco refinadas e texturas internas que lembram a geração MSFS 2020 sem retrabalho. A iluminação noturna é inconsistente: em algumas variantes a cabine chega a ficar praticamente apagada por limitações no painel de comissários, enquanto luzes de emergência e strobes exibem efeitos exagerados ou desalinhados.
No áudio, a sensação é parecida: existe um sound set interessante, com ambiente de cabine, anúncios e dinâmica de motores, mas tudo soa baixo demais, mesmo sem o efeito de headset. O resultado é um avião que tecnicamente tem um bom trabalho sonoro, porém enterrado no mix, tirando impacto das decolagens e passagens externas. Pequenos detalhes estranhos, como avatares de pilotos duplicados no cockpit e opções de visibilidade que não funcionam direito, reforçam a impressão de um produto ainda em transição, com foco maior em sistemas do que em acabamento.
Preço, valor e posição no mercado do MSFS
Com a chegada da versão 1.0, a FlightSim Studio encerrou o preço promocional de Early Access e reposicionou o produto na faixa alta do mercado. Hoje, os pacotes E-170/E-175 e E-190/E-195 são vendidos separadamente, cada um na casa dos 50 euros mais impostos, enquanto o bundle cargueiro tem preço menor, mas ainda significativo. Quem comprou no início ganhou o upgrade para 1.0 e o Freighter sem custo extra, o que torna o negócio bem mais interessante para os “investidores” originais do projeto.
Para novos compradores, porém, o cálculo é mais duro: estamos falando de valores próximos aos de addons consagrados, em um produto que ainda não oferece falhas, não tem visual no nível top do MSFS 2024 e carrega um histórico turbulento. Em compensação, a base de sistemas está muito mais madura, o desempenho em FPS é bom e, sobretudo, há a proposta de algo diferente dos eternos Boeing e Airbus – um Embraer com bastante profundidade operacional e potencial claro de evolução, se o estúdio mantiver o ritmo de updates.
Resumo e Análise Editorial FlySimBR
O FlightSim Studio E-Jets 1.0 finalmente entrega um Embraer crível e interessante de voar no MSFS, com sistemas bem mais profundos, LNAV/VNAV utilizáveis e uma família de variantes completa, mas ainda está um degrau abaixo do preço que cobra em acabamento visual, polimento de navegação, EFB pobre e ausência de falhas; para quem é fã de jatos regionais e aceita conviver com bugs menores, faz sentido começar por um único pacote (E-190/E-195 é a escolha óbvia) e apostar que a FSS realmente vai transformar esse “7/10” em algo de referência antes que a concorrência tome o espaço.













